A federação não vai esperar Brasília.

Prédio público de arquitetura modernista brasileira ao entardecer
A tese

Pragmatismo, não pânico.

O Brasil vai ter uma lei federal de IA, e é melhor que tenha. Mas a política pública real acontece antes disso e continua depois: é o governo estadual que compra sistema de triagem para a fila da saúde, é a prefeitura que decide como usar reconhecimento de imagem no trânsito, é a assembleia legislativa que aprova a primeira regra local sobre decisão automatizada.

Duas coisas costumam dar errado nesse nível. A primeira é a regra ampla escrita no susto, que proíbe categorias inteiras de uso antes de alguém entender o que estava sendo proibido — e que depois precisa ser remendada. A segunda é o oposto: comprar tecnologia sem capacidade técnica para avaliá-la, e descobrir o problema quando o contrato já está assinado.

A resposta não é escolher entre correr e travar. É acertar antes de acelerar: legislar com precisão sobre dano concreto, e ao mesmo tempo usar a tecnologia onde ela melhora um serviço que a população já reclama.

Três frentes

Onde o projeto atua

Frente 1

Regulação precisa

Regra local deve mirar dano específico e verificável — decisão automatizada sem revisão humana, discriminação algorítmica em crédito, moradia e emprego, uso de dado sensível sem base legal.

Legislar com precisão, não com amplitude: uma definição larga demais de “sistema de IA” transforma planilha em objeto regulado e não protege ninguém melhor.

Frente 2

IA cívica

Adoção de IA dentro do próprio Estado, para reduzir tempo de espera e custo: triagem de fila, atendimento em canal público, análise de processo administrativo repetitivo, manutenção preditiva de infraestrutura.

Com três condições inegociáveis: revisão humana em decisão que afeta direito, avaliação pública de resultado e portabilidade de dado para não aprisionar a administração a um fornecedor.

Frente 3

Energia e infraestrutura

A demanda de data center é uma oportunidade de desenvolvimento regional se estiver ligada a geração renovável nova e adicional, licenciamento com prazo e rede de transmissão modernizada.

Sem isso, vira disputa por energia existente e pressão sobre a tarifa de quem já mora ali. Com isso, vira investimento, emprego qualificado e arrecadação no interior.

O que estamos acompanhando

As categorias de projeto que aparecem nos estados

Discriminação algorítmica

Onde a regra é mais necessária e onde há mais consenso possível: crédito, seleção de emprego, acesso a moradia e a serviço público.

Promoção de IA cívica

Autorização, orçamento e governança para o próprio Estado usar a tecnologia — a agenda mais desprezada e a que mais rende resultado visível.

Licenciamento e energia

Prazo e rito para conectar geração, transmissão e centro de dados. É aqui que política de IA vira, na prática, política de infraestrutura.

Compra pública de IA

Edital, critério de avaliação e cláusula de portabilidade de dado. É a competência mais indiscutível que o estado tem sobre tecnologia — e a menos exercida com critério.

Uso de dado na administração

A LGPD é federal, mas cada estado decide como trata o dado que coleta. Encarregado, base legal, ciclo de vida e transparência ativa são decisões estaduais.

Formação e escola estadual

A rede estadual de ensino é do estado. É onde o letramento em IA e a formação de professores acontecem de fato, sem depender de lei nova.

O limite constitucional

Estado brasileiro não é estado americano.

Vale dizer com clareza, porque muita proposta de regulação estadual de tecnologia nasce copiando o desenho americano e morre no controle de constitucionalidade. Lá, os estados legislam sobre matérias que aqui são privativas da União — direito civil, comercial, penal, direito autoral. Um projeto de lei estadual sobre direito autoral em conteúdo gerado por IA, por exemplo, é inconstitucional no Brasil antes de ser bom ou ruim.

O que o estado brasileiro pode fazer é considerável, e é o que este projeto persegue: legislar de forma concorrente sobre proteção do consumidor; organizar a própria administração, inclusive como compra, avalia e usa tecnologia; conduzir a rede estadual de ensino e saúde; e atuar no licenciamento ambiental e de infraestrutura dentro da competência que já tem.

Isso não é um consolo. É o contrário: são as alavancas que produzem resultado visível para a população sem depender de aprovar lei nova nem de vencer disputa federativa.

Por que os estados

É onde o campo progressista governa — e onde pode provar.

O campo progressista administra estados e grandes cidades brasileiras. É ali que existe a chance de demonstrar, com serviço público funcionando, que uma gestão de esquerda entrega — em vez de apenas defender o que já existe.

Um governo estadual que reduz o tempo de uma fila com tecnologia e diz publicamente como fez ganha um argumento que nenhuma peça de campanha compra. É essa a ponte entre este projeto e O Brasil que Funciona.

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